Com educação e afeto, a gente faz revolução

Por Lana Souza


Uma planta não surge de um dia para o outro. Alguém precisa lançar a semente na terra, regar, cuidar, até que ela comece a crescer e dê frutos.” conta Camila Santos, uma das coordenadoras do Mulheres em Ação no Alemão (MEAA), sobre o papo que os adolescentes do projeto tiveram com parte da equipe Papo Reto. O encontro fazia parte do processo de entrega dos kits escolares que o MEAA distribuiu. 

Depois de seis anos tendo a pauta da segurança pública como principal área de atuação, o Coletivo Papo Reto tem refletido e se permitido fortalecer ainda mais outros campos igualmente importantes para o desenvolvimento da favela. Parte dessa mudança, está refletida na criação do Espaço Papo Reto, onde o objetivo é promover encontros. A equipe tem trabalho para que os projetos parceiros se apropriem cada vez mais e construam possibilidades para a favela de maneira coletiva.

Com educação e afeto, a gente faz revolução
Foto: Carlos Cout

Receber as crianças e adolescentes do MEAA para falar sobre o trabalho do Coletivo e assuntos relacionados a direitos humanos foi de grande importância e de muita responsabilidade para toda a equipe. Renata Trajano, que no Coletivo é responsável principalmente pela articulação local, conta que sempre gostou de estar próxima da pauta da educação. “Eu sempre quis ser professora. Brincava de escolinha na minha casa da Baixada. Quando me mudei para o Alemão fazia reforço escolar na varanda de casa. Eu sempre acreditei que a educação seria a revolução.

No encontro com o grupo, Renata falou sobre as diversas violações que sofre enquanto moradora de favela e defensora de direitos humanos, mas pontuou que não lutar por esses direitos não era uma possibilidade viável. Apesar dos assuntos difíceis e delicados que foram abordados no encontro, o clima foi de leveza, fazendo com que até Carlos Cout, cinegrafista do Papo Reto, que não gosta muito de falar em público, fizesse contribuições importantes. “Começar uma conversa não é muito o meu forte, mas a medida que o papo vai fluindo eu fico mais tranquilo pra acrescentar e pontuar algo.” Explica Carlos. 

Diferente de Carlos, Ananda Trajano, social media e a mais jovem integrante do Coletivo, se sente confortável nesse ambiente. “Ter uma idade relativamente próxima a de alguns adolescentes presentes não me trás um peso não. Falar sobre assuntos importantes e graves com eles é tranquilo pra mim. Sei que é um tema mega necessário e sinto que eles não tem muita gente que fala diretamente assim e que tem uma idade parecida.” Ananda deu até puxão de orelha “Eu vou pro baile também tá. Se eu pegar alguém na vacilação, vou fazer voltar pra casa”. Todos riram.

Este clima de papo entre amigos se deu pelo fato de que ali todas e todos estavam falando da mesma vivência. “Na maioria das vezes, esse tipo de conversa fora da favela fica apenas na questão técnica, porque temos que explicar todo o contexto, inclusive desmontando estereótipos que são criminalizadores desse lugar e dessas pessoas.” explica Raull Santiago, relações públicas do Coletivo.

Durante o Papo, Raull falou de futuro, possibilidades e esperança. “Quando o papo acontece com a maioria tendo noção da realidade em questão, a gente consegue falar com mais sentimento.” Conclui. Para Renata, este sentimento vem em forma de tristeza, mas também de orgulho. “Infelizmente eu já perdi muitos alunos para o tráfico. Alguns já estão mortos, outros no sistema… Mas tenho orgulho de várias e vários que hoje estão formadas e mandam mensagem agradecendo muito por ter me tido como exemplo na vida

Por fim, Camila explicou que queria fazer mais do que só entregar o material, queria deixar algo que fizesse aquelas crianças e adolescentes refletirem. “Mesmo sabendo que era uma ajuda, pra mim era uma ajuda vazia. Queria contribuir com algo que ninguém pudesse tomar deles. Muitos ficaram calados, mas depois eu tenho certeza que meu whatsapp vai encher de mensagens deles comentando sobre o papo.” Alguém duvida que a semente foi plantada e já está sendo regada com muito amor?

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