Eu só tinha 14 anos…

Por Pamela Souza


Tem uma coisa que há tempos falo pouco aqui, da minha vida, aliás, do percurso dela até aqui…

Na verdade, há tempos eu parei de fazê-la.

No meu tempo de militante eu fazia bastante, não era de mim exatamente que eu falava; eu narrava minha vida através das violações que eu via e vivia direta e indiretamente.

Um desses relatos é de um dos episódios mais horrendos que passei e vi na vida.

Até aí, meu mundo, (pelo menos durante os 8 anos que fiquei no colégio interno), foram os mais bonitos, singelos e inocentes que eu já havia vivido.

Saí de lá com 14 anos e fui morar direto no Complexo do Alemão, veja bem, EU TINHA 14 ANOS.

Muitas coisas eram novidade pra mim, aliás, todas!

Eu sempre morei em favelas ou áreas periféricas do Rio, entrei com 7 anos no colégio interno, saí e caí direto no colo do COMPLEXO DO ALEMÃO, diretão assim, sem pensar, na ocasião nem dava mesmo para ser em outro lugar, a condição levou a gente pra lá, mas poderia ter sido qualquer outra favela do Rio.

Eu era fofa, magrela, cabelão enroladão, cara de criança boba, eu era, “em termos”… e olhava aquele “mundo” favela tentando entender a dinâmica dentro daquela cidade chamada Alemão; era muito doido pra mim como tudo funcionava, muito doido – as pessoas, o tráfico, as motos, carros, comércio, mototáxi, UMA CIDADE!

Como isso?

Eu tinha 14 anos e vou repetir novamente, porque é preciso entender isso!

Tem coisas que você se torna porque quer, outras porque você mora em favela, as circunstâncias te empurram, VAI!

Você não fica procurando “porquês”, você vai sendo, se tornando, construindo aos poucos, porque vê, porque vive e porque sente!

Todo aquele mundo chamado favela me causava curiosidade, mas imagina, meu itinerário era casa escola/escola casa -ai- de mim desviar um centímetro desse percurso, mãe “veterana” da vida, neurótica de guerra, (anos depois que eu fiquei sabendo que ela tinha olheiros em tudo que é lugar, rsrs), como uma boa mãe favelada, as mulheres cuidam dos filhos das outras e nem precisam permissão, filho de um na favela, é filho de todos (se fosse assim fora do mundo favela, as crianças não desapareciam tanto).

Voltando..

Quando eu desviava um passo, minha mãe brotava do bueiro para me buscar e, com direito a uma perna de três (uma ripa de madeira da grossura da perna do Rambo) ,gigaaaaante, pra ninguém botar defeito e ser besta de tentar me resgatar.

Ela não me batia, mas só o medo já servia pra me fazer entender que cumprir o itinerário era beeeeem melhor que desobedecê-lo, rrsrsrsrs

Um salve pra minha MUSA, te amo, dona Baiana! (Ela diz que não lembra de nada disso quando a gente conversa sobre o passado. Porque mãe sempre esquece, né?! rsrs)

2011
Arquivo pessoal

EU TINHA 14, A N O S!

Minha mãe nunca foi uma mãe convencional, era mãe de favela, sabia o ritmo das coisas, eu tinha chegado “agora”, tinha nem saído das fraldas.. ela me deixava nem meter a cara no portão da vila de casa, aliás, no 4×4 ou 2×2 sei lá, que a gente morava no Areal (arquiteto de favela faz casa do tamanho que dá na telha, rs).

Atrás da nossa casa, embaixo, morava a Marinete CATA LIXO, como era conhecida no Alemão, por quê? Ela catava lixo e levava tudo para o quintal dela, que na verdade não era quintal, era a porta da casa dela que, na ocasião, era as costas do meu casebre

Minha mãe, essa mulher maravilhosa que ia me buscar nas esquinas de perna de três, sempre foi o ápice da limpeza em uma pessoa que eu JAMAIS encontrei e encontrarei nessa vida e, para o sofrimento mental e espiritual dela, por causa do lixo da Marinete, subiam muuuuuuuuuuuitas, muuuuuuuuuuuuitas, milhares de baratas pela única entrada de ar que existia na casa, fora a porta da entrada, imagina? NÃO! Você não imagina e pior que as baratas, eram as RATAZANAS do tamanho de um boi, grandes! Rinocerontes certamente eram fichinhas perto dos ratos que tinham lá, sem exagero, serião!

Minha mãe até já ajudou ela a tentar limpar o quintal, mas, ela tinha compulsão (isso é só um adendo).

Com 14 anos, minha mãe sabia que era a fase tenebrosa da adolescência, sagaz que só ela, o auge da fase, eu, tadinha, curiosa.

Não era exatamente inocente, mas eu não tinha malícia, não era sagaz, tinha acabado de sair do colégio interno;

Mas minha mãe sempre jogou limpo comigo, sempre me deu o “papo reto”, retão mesmo, desde sempre (quem a conhece sabe, continua a mesma, rs). Eu não acreditava em cegonha e nem em lobo mal, nunca me foi contada histórias de conto de fadas, de princesas, príncipes, nada disso… LITERALMENTE.

Minha vó era papo reto, minha tias eram, minha mãe sempre foi, eu fui criada por mulheres fortes, independentes e sozinhas.. mas, era a primeira vez que, no auge da minha adolescência, eu me compreendia como indivíduo vivendo, experienciando e experimentando o mundo, um mundo totalmente diferente de onde eu tinha vindo, eu queria saber.

Era muita coisa junta e misturada para digerir ao mesmo tempo e, o freio da minha mãe (fora a perna de três, rsrsrs), eram vaaaaaaaaaaarias horas de papo cabeça para me explicar que aquilo ali tudo que eu tava vendo e querendo saber, tinham vaaaarias consequências também.

Minha mãe era CRIA e não criada, né mores?! rs

Naquela época a gente ainda tava tentando se entender como mãe e filha, o diálogo era meio arranhado e o fio do telefone só para o lado dela (rs).

Direito eu só tinha de obedecer mesmo, rsrs

Mas, antes disso tudo, de eu virar adolescente, ir pro colégio e, desconfio até de, talvez, ser filha da minha mãe, eu fui neta, neta da Dona Emília.

EU SINTO UMA SAUDADE QUE NÃO DÁ PRA DESCREVER e, por isso nem vou tentar…

A dona Emília era – A MULHER -, quem não conheceu pode lamentar e se arrepender, lamenta aí porque passar pela vida e não ter conhecido a Dona Emília, é um desperdício de vida, tenho dito!

Eu fui a primeira neta (pelo menos até descobrirmos a Paulinha, prima, filha do meu tio mais velho, enfim, casos de família, rs), a neta que, segundo ela mesma falava, sempre a ouviu contar as infinitas e hilárias histórias, de sofrimentos e remotas alegrias dela, até eu cair no sono – ela dizia que era bem provável que de vez em quando eu a tivesse xingado em pensamento mas, que eu nunca ousei exprimir sequer um “ai” pra ela, mas é possível que às vezes sim, ou porque a minha vó era MUITO inteligente e eu não tava entendendo bulhufas, mas ouvia mesmo assim, ou porque às vezes ela me dava umas broncas FEDERAIS que eu achava que eram sem motivos, rsrsrs.

E que eram, na verdade, porque eu era um amorzinho de criança, tinha boca e não falava, por isso inclusive, que eu acho que falo pelos cotovelos hoje!

Eu era um pouco sonsa, confesso. Não porque eu era maldosa, mas porque eu ouvia tudo, tudinho mesmo, todas as conversas, segredos, lamentos, sofrimentos e contestações das mulheres da minha família e ficava analisando, diante do meu entendimento de criança, da minha construção, desde ali, tão pequena, me formando mulher, a mulher que sou hoje!

Aos 14 eu acho que foi exatamente o momento que tudo o que eu ouvi delas, que eu entendi, ao menos em partes, o que eu poderia ser dali pra frente.

Eu até tentei ser uma jovem normal e, até meus 16, quando eu comecei a ter mais liberdade, sair umas duas horinhas no portão de casa, SÓ duas horinhas e nada mais que isso!

(esse era o limite da minha liberdade, duas horas de portão)

Lembra da parte em que falei que tem coisas que você se torna porque quer, outras porque você mora em favela?

Não é por acaso, nem algo despretensioso, se você tiver um olhar um pouquinho mais apurado, você vai entender porquê não.

Do portão da vila, a visão que eu tinha dali, dá até pra fazer um livro, vários livros, é muita história, muitas..

Como eu era ”novidade” na área , vez ou outra chegava alguém no meu portão e perguntava meu nome, puxava um assunto, a maioria meninas.

Na favela se você chegar sem amigo, você com certeza sai de lá não apenas com um, mas com vários;

Eu tinha que aproveitar, porque eu só tinha aquelas duas horinhas antes da minha mãe chegar da rua e tinha que aproveitar para conversar com o máximo de pessoas que eu conseguisse, eu mesma não puxava assunto com ninguém, eu era muito tímida (quem vê hoje a tagarela, rs)

Depois que você mora em favela, timidez é algo que tu abole do dicionário, porque nem dá pra tê-la por muito tempo, quando você sai pela porta da favela pra fora, se você não abole ela, o mundo fora dela te ENGOLE e, o primeiro entrave é a hora que tu vai levar o currículo para uma entrevista de emprego:

– Joaquim de Queiroz?

– Sim

– Onde fica, Pamela?

– Em Ramos!”

– Tudo bem, obrigada. Seu currículo é ótimo, vamos te ligar.

N.U.N.C.A. MAIS!

(rsrs)

2013
Arquivo Pessoal

Eu to rindo, mas era trágico, eu não entendia nada, mas eu tinha sido treinada a não falar que a Joaquim de Queiroz era rua principal do Complexo do Alemão.

Na verdade, era a rua da associação de moradores, único endereço possível que podíamos colocar para correspondência porque era só até ali que o carteiro ia, por constar em TODOS os bancos públicos de informações que ali era uma ÁREA DE RISCO.

Tudo isso aí, esses poucos empecilhos todos,

Eu fui entendendo na pancada, nas caras nas portas, nos ”risinhos” de “boa sorte” e nunca mais, das entrevistas de emprego, na mesa dos gerentes que eu ia abrir a conta pra receber o salário com o comprovante de residência com o cnpj da associação de moradores… NA MARRA!

TU NÃO QUER CONHECER O MUNDO, PAMELA?

TU VAI CONHECER, O PIOR E O MELHOR DOs DOIS MUNDOS, SE JOOOOOOOOOOOGA, GAROTA!

Às vezes eu chegava chorando em casa e nem entendia. Experimentar a sensação de desbravar o mundo como favelada, era um sentimento extremamente novo.

O preconceito, discriminação, espanto, curiosidade e desprezo das pessoas com o endereço que me representava, era algo assustador, um soco daqueles que laceram vários órgãos e quase, QUASE te faz morrer, em muitos casos, literalmente! (só quem é, vai entender o que tô falando aqui)

Esses socos, são socos que normalmente tem consequências irreversíveis e eu, quase “morri” com essa sequência de quase 15 anos, morando e respirando dor, desigualdade, mortes, fome, choros, desesperança, olhares perdidos..

Eu fui, aos poucos, perdendo a inocência, e a pureza deu lugar a malícia, aquela que eu insistia em negar nas falas carregadas de experiência, medo e amor da minha mãe.

Ela sabia, eu não.

O que me esperava lá fora, fora dos muros, dentro da cova dos leões…

Aos 16, de cima da minha laje, eu dei minha primeira aula de moda e maquiagem, para mais ou menos 30 meninas, de variadas idades, todas menores de idade, alguma grávidas.

Dali por diante eu, Pamela, mudaria todo o rumo da minha vida, o que me traria para onde estou e quem sou hoje.

(Tempos depois, junto da minha mãe, fundamos o Projeto Arte Complex, onde eu dava aula de moda pra meninas e meninos do Alemão), esse é um outro episódio bonito da minha vida..

A luta me encontrou

Tanto ela quanto eu nem fizemos esforço pra isso acontecer, era só uma questão de tempo e rota pra gente se esbarrar, pronto, encontramos, aos 16, ela sentou no meu colo, não se apresentou, na verdade eu nem a percebi.

Ela costuma fazer isso com quem vive à margem.

Ela manifesta de muitas formas mas, o indivíduo para quem ela se apresenta não, sem escolha, ela chega e fica, NUA E CRUA.

E sem sazón, como dizia Dona Emília.

Não sei dizer exatamente o dia daquele fatídico ano de 2005 em que ela pegou na minha mão e não largou mais.

No percurso ela tirou um pouco de tudo que eu ainda via de colorido, aos poucos o arco íris da adolescência foi sendo pintado apenas de duas cores, preto e branco e, às vezes vermelho.

Eram essas as cores que se resumiam as experiências que eu vivi dali por diante, depois que a venda dos olhos da Alice caíram dos meus olhos.

Branco: tranquilão.

Preto: caveirão, bombas, vários dias sem poder sair de casa, falta de luz, água, eletrodomésticos queimados, tiros, desespero.

Vermelho: mortes e dor!

Sabe a laje que eu dava aula?

Repleta de sangue, corpos, de amigos, de escola, de filhos de vizinhas.

Meu pai resgatando, trazendo nos braços, sem pé, sem um pedaço da perna, do braço, da cabeça, eu acolhendo em casa, minha mãe cuidando dos ferimentos, mortes

EU!

14, anos!

ATENTE PARA A IDADE

14!

Imagina a Alice caindo no buraco, a diferença é que a parte do maravilhoso do país dela, não era exatamente o que tinha no meu.

Se tudo isso me endureceu?

Se fiquei anos sem me permitir ser jovem, ver colorido, ir a praia e tomar refrigerante numa lanchonete com meus amigos?

Se a indignação e nenhum outro sentimento era a única coisa que me movia e nada mais importava que apenas gritar minhas dores para mundo? Sim!

Eram as únicas saídas possíveis que eu conseguia enxergar naquele mar de DOR que eu sobrevivia.

Eu só sabia falar dela e com ela, carregada dos dias mais obscuros que ela me proporcionava, mesmo que houvesse dias bons, ela monopolizava a maior parte do tempo e, foi por muitos anos a protagonista da minha vida.

Um dia, depois de tanto lutar, entregando tudo de mim para uma luta que não tinha final nem na morte, eu adoeci!

Cai e quase sucumbi. E, quem doente cuida de outra pessoa?

Doentes se cuidam mutuamente?

Quem que cai em um buraco salva outro sem conseguir enxergar luz no fundo dele?

RECUEI

Não dava para continuar perdendo partes de mim para algo, um alguém, uma coisa que hoje, quase 15 anos depois, ainda tira partes de mim!

Partes valiosas de mim!

Partes importantes de mim!

Afetuosas de mim!

Minhas partes!

Partes de outros alguéns que amo?!

Eu tinha que resgatar as partes coloridas que eu perdi nos meus 14, não dava pra ficar enxergando em preto e branco.

Que sentido faz lutar se no final as suas partes, partem de você?

Eu só vi sentido depois que recuei.

Um passo atrás para dar outros pra frente…

Fiz…

Agora mesmo, já passam das três da manhã e eu tô aqui, escrevendo, chorando e imaginando como poderia ter sido, mas não foi.

De tudo, eu não fico triste, pois me tornei o que eu deveria ter me tornado, hoje sou exatamente quem eu deveria ser e continuo construindo e acrescentando no que poderei ser ainda no futuro.

Hoje aqui, de longe, ainda dói.

Nunca vai parar de doer totalmente, faz parte dos que nasceram para sentir demais!

Mas daqui eu ando tentando colorir meu arco-iris.

E, mesmo que as partes que partiram de mim não voltem novamente, as partes que sobraram assumiram a árdua tarefa de compensar a falta das partes que foram embora.

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