Jornais se preocupam com brincadeiras de crianças, enquanto as “brincadeiras” de adultos matam jovens

Por Thainã de Medeiros


Os jornais estão super preocupados com guerrinha de sacolé. Foi até capa em alguns deles. Uns tempos atrás a preocupação eram os rolezinhos em shopping, porque né… um monte de jovem favelado em shopping deve ser muito perigoso. Também já foi capa de jornal as piscinas da maré e os pula-pula do Chapadão, ambos, segundo esses jornais eram patrocinados pelo tráfico para atrapalhar a polícia. Vejam só.

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Ao longo da minha vida brinquei de guerrinha das mais variadas formas e regras. A mais sofisticada dessas brincadeiras acontecia na casa dos meus primos lá no morro do Caracol na Penha. A galera fazia umas armas de madeira com um sistema de pregador que segurava um elástico e disparava uma chapinha de metal. Os moleques eram verdadeiros engenheiros! Algumas armas eram tão sofisticadas que podiam disparar ao mesmo tempo mais de uma chapinha. As guerras mais sinistras aconteciam em cima de carrinho de rolimã também criados pelos moleques. Mano, Mad Max não é nada perto do que acontecia naquela ladeira. Muito joelho ralado e criança rindo.

Na minha rua a engenharia das crianças era um artefato feito com aquele cone em que vinham as linhas de costura. A molecada prendia um pedaço de bexiga nessa parada que podia esticar e prender uma pequena pedra ali dentro. Não tinha pressão suficiente pra ir muito longe, mas de perto deixava boas marcas.

Guerrinha de sacolé também tinha, mas podia ser com bexiga cheia de água, geralmente acontecia no verão, os pais sabiam e não se importavam, estava um baita calor. Às vezes vinha uns moleque metido a Rambo e ligava a mangueira de casa e disparava a rajada, a gente fingia que era atingido só pra cair no chão todo molhado e se refrescar. Isso era maneiro pacas. Rolava até umas “granadas” de saco de supermercado. Era difícil atirar essa, mas a gente meio que queria ser atingido, o que facilitava

Eu era ruim de mira e de fabricação dos tais artefatos, mas era bom de fugir.

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Final de ano, rola a tradicional ovada em quem passou de ano e teve um dia que eu fui o único que ainda não havia levado ovadas. Me pegar era questão de honra. Certa vez consegui fugir de todos, mas ficaram em frente a minha casa esperando. Eu tentei correr, dei um olé em um, em outro, os ovos passavam sem me atingir até que já tinham acabado todos. Caminhei tranquilamente para minha casa quando o safado do Boquinha, vulgo Rafael Mello me segurou , veio o “TioNew” que malandramente pegou o ovo que já estava estourado no chão, juntou tudo e tacou na minha cabeça. Essa guerra tinha perdido.

A tudo isso, posso somar as guerrinhas de amendoeira. Tinha uma amendoeira na nossa rua bem em frente a uma casa que ficou abandonada durante um bom tempo. Ficar sentado no muro da casa era o point dos moleques. Até que de alguma forma que não sei explicar, alguém pegou uma amêndoa e começou a batalha. Formaram-se dois times, um ficava dentro da casa, outro fora, e o “tiroteio” de amendoeira comeu! Vidros quebrados, roupas sujas de amêndoas e um baita esporro dos adultos (chatões).

Ainda posso falar das guerrinhas de carambola. Essa acontecia com meu pai no quintal de casa. Começou comigo de boa brincando com meu boneco do He-man quando uma carambola caiu na minha cabeça, sai dali e recebi outro golpe, olhei pra cima e tava meu pai me acertando e rindo feito uma criança. O pé de carambola ficava ao lado de um pé de cajá, e foi declarada a guerra de cajá contra carambola, pai contra filho. Foi inevitável acertar a casa dos vizinhos que até reclamaram. A lição que ficou nesse dia: uma guerra sempre atinge inocentes.

No final das contas, tem um monte de adulto preocupado com brincadeiras de crianças. Jornais fazem uma verdadeira guerra às guerrinhas, sem se tocar que são as guerras entre adultos que estão tirando vidas de crianças. Deixa os moleques brincar e criem condições de que essas brincadeiras sejam uma potência às suas juventudes.

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