Jornalismo comunitário: Uma ferramenta necessária para a comunicação no Brasil

Existem diferentes formas para se aplicar os conceitos de comunicação na sociedade. Porém, não se pode negar que a chegada da internet para uso doméstico no Brasil, em 1995, foi um marco importante para a evolução de algumas técnicas, assim como a criação de muitas outras. Mas, entre os pontos negativos é importante perceber como esse mesmo marco, ao longo dos anos, contribuiu para que a comunicação direta, olho no olho, se tornasse para muitas pessoas, menor ou até mesmo desnecessária.

O Coletivo Papo Reto é um grupo que surgiu oficialmente no início do ano de 2014. Em todo esse tempo atuando no Complexo do Alemão, foram muitos os aprendizados e as metodologias desenvolvidas. Mas, o que, de fato, o Coletivo Papo Reto faz? A resposta melhor elaborada para essa pergunta é dizer que “o Papo Reto é um coletivo de comunicação independente que atua no Complexo do Alemão, favela que fica no Rio de Janeiro, e que usa a comunicação como ferramenta para reafirmar direitos e disputar narrativas para a favela e também sobre elas. Além de reivindicar reais investimentos públicos, com a participação da população, e mobilizar ações dentro e fora das redes sociais com o objetivo de fortalecer positivamente o território”.

Com o protagonismo das redes sociais, o que muitas pessoas passam a entender e reconhecer como comunicação se resume ao que se encontra dentro desse tipo de mídia. Por isso, parte do trabalho que o Coletivo Papo Reto desenvolve está associado a necessidade de possibilitar acesso à informação para moradores e moradoras. O Coletivo entende as ferramentas tecnológicas como um meio e não como um produto do todo. Desta maneira, toda e qualquer atividade desenvolvida pelo Papo Reto, seja ela cultural ou de formação política, mantém a característica de fortalecer as relações locais através da experiência de ouvir e entender as pessoas de forma direta, sem interlocutores tecnológicos para isso.

Ao falar sobre como os grupos comunitários se organizam para pensar e produzir comunicação, é necessário falar antes sobre como se comporta o que chamamos de “Mídia corporativa” ou mesmo “grande mídia”: as empresas dos grandes canais de televisão ou mesmo de jornal impresso. Hoje é comum ouvir pessoas falando que um ou outro programa de tv não as representam, que não se enxergam nos conteúdos que os jornais impressos estão divulgando.

Agora imaginem a seguinte situação: Agentes das forças policiais encontram um casa cheia de drogas e armas escondidas. A notícias sobre este fato pode variar de acordo com o responsável pelos materiais encontrados. Se o dono do conteúdo for um jovem branco, de classe média, a chamada será “Jovem de classe média é encontrado em casa com drogas”. Já se o responsável for um homem negro, o título será “Traficante é encontrado com toneladas de drogas e armamento pesado”. Este, inclusive, é um exemplo real, de reportagens que saem diariamente nos noticiários brasileiros. O homem branco é jovem, o negro é traficante. Isso apenas para exemplificar, pois existem diversos outros exemplos que poderiam ser dados. Porém, para quem desejar, o Coletivo Papo Reto em seu blog já fez algumas correções (em português) de matérias como essas, inclusive a do “jovem de classe média” é uma delas.

Assim funciona a grande mídia, assim é como ela ganha dinheiro. A construção do medo gera revolta e anseio por vingança e muitas vezes até o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Essa narrativa de que o jovem de periferia é sempre visto como o traficante, o violento e o responsável pelo caos na chamada “guerra às drogas”, é o que legitima as operações policiais nas favelas, gerando mortes, impedindo o direito de ir e vir e diversas outras violações. A população das “áreas nobres” da cidade aplaudem essas operações e sentem-se, de forma não falada, satisfeitas quando alguém morre em um confronto policial dentro da favela. E por que isso? Porque a grande mídia construiu no inconsciente da sociedade uma narrativa de que as pessoas que moram nas regiões mais pobres são seres matáveis, que são os seres responsáveis por toda a violência que existe na cidade. Ao mesmo tempo que o jovem, negro e favelado é colocado como o centro do problema, não existe nenhuma matéria investigativa para mostrar como as armas e drogas chegam nas favelas, já que nesses territórios não existe fábricas de armas e muito menos plantio de alguma droga. Essa matéria não existe pois a “guerra às drogas” é um projeto extremamente lucrativo para os verdadeiros traficantes. Nada se fala sobre o tamanho do lucro que essa “guerra” dá para os grandes empresários no Brasil.

Foto: Bento Fabio/Coletivo Papo Reto

E se a grande mídia não representa essa parte da população, quem cumpre esse papel são os grupos de comunicação independente, como o Coletivo Papo Reto, por exemplo. Apesar desses coletivos terem que também falar sobre a violência que acontece no território, essa é uma narrativa a partir da vivência e não do que o jornalista dos grandes veículos de comunicação acredita ser. A diferença é que os grupos de comunicação popular entendem a humanização e o cuidado que aquela reportagem precisa ter, ao passo que o jornal tradicional não se preocupa com os resultados negativos que suas notícias pode gerar no dia a dia daquela população.

Hoje o Coletivo Papo Reto é formado por sete moradoras e moradores do Complexo do Alemão, cada um possui uma habilidade diferente, tem fotógrafos, jornalistas, museólogos, mediadoras de conflitos, etc. Entretanto, todas e todos possuem um senso comunitário que contribui para que a construção da narrativa sobre o que acontece nas favelas e periferias seja feita de maneira mais democrática e participativa. Todas as pessoas que fazem o Papo Reto acontecer, sabem o que e como querem ser representadas, como querem ser vistas e apresentadas ao mundo. Nada mais justo que essas pessoas tomem para si a responsabilidade de criar suas narrativas e propostas para um novo jornalismo, mais plural e mais humano.

Comunicação popular, jornalismo comunitário, comunicação comunitária, etc. Existem diferentes formas para nomear o tipo de trabalho que grupos como o Coletivo Papo Reto fazem. Todas essas formas estão corretas e são legítimas. O mais importante é entender a necessidade desse tipo de trabalho existir. A comunicação popular geralmente está associada a uma ideia de transformação e de resistência. No momento em que todos estão se apropriando e utilizando cada vez mais as redes sociais e as suas infinitas possibilidades para produzir uma comunicação mais potente, o Coletivo Papo Reto une essa oportunidade de comunicar com a necessidade de se lutar por direitos humanos e com a potência que o diálogo pode proporcionar, isso para garantir que os reais interesses da população sejam ouvidos e colocados como prioridades na disputa de narrativa política.

Foto: Bento Fabio/Coletivo Papo Reto

Por outro lado, assim como existe a necessidade desses grupos produzirem uma nova forma de comunicar os problemas que enfrentam morando nas favelas e periferias da cidade, existe também um desejo intenso de serem reconhecidos e fortalecidos pela qualidade técnica que seus trabalhos possuem e também por suas produções culturais e de registro da memória local. É muito comum que a pauta da violência seja a mais disseminada, visto que existe um grau de urgência e um instinto de sobrevivência  que atinge os produtores de conteúdo que vivem nesses territórios. Assim como os telejornais não contemplam a realidade vivida, o entretenimento também exclui esta parte da cidade. Novelas, programas de humor, de auditório, etc, também não dialogam com o que de melhor acontece nas favelas. Por isso, assim como surgem muitos jornalistas comunitários, existem milhares de artistas produzindo um novo conceito de entretenimento. No fim das contas, a busca daqueles que vivem nas zonas periféricas da cidade é pelo desejo de ter sua história sendo contada de forma verdadeira e humana. Porque quando isso acontecer, esses grupos poderão parar de dizer que “representatividade importa” e passarão a dizer que “representatividade existe”.

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